A inocência morreu?

Quando penso na palavra inocência, logo me vem a imagem de uma criança. Não me refiro à sua inocência em relação a Deus, pois cremos que desde o nosso nascimento herdamos a natureza pecaminosa (Salmo 51.5) e que se não fosse por Jesus estaríamos condenados. Refiro-me a uma inocência em relação ao mundo como um todo, o que torna a criança um ser totalmente dependente de alguém. A “inocência da dependência”, digamos assim. O ser humano é um dos seres mais dependentes que existem! Pense: Quando uma criança nasce, ela precisa de todo o amparo ao seu redor (desde alguém que a retire da sua mãe, até alguém que a alimente, que a limpe etc.), do contrário ela não sobrevive. É diferente de um animal como a girafa, por exemplo. Você já viu como seus filhotes nascem? Eles praticamente já saem do ventre andando! É muito curioso de se observar. Bem, com a criança não é assim. Mesmo nos primeiros anos de vida, as crianças ainda continuam dependentes para todas as coisas.

E é isso que eu queria pensar com você. Como nós, seres humanos, perdemos com facilidade a dependência do nosso Deus. Desde o Éden, mesmo cercados com tudo o que precisávamos para vivermos felizes, escolhemos nosso próprio caminho e fizemos escolhas opostas à vontade do nosso Pai. E não apenas lá atrás, na criação, mas todos os dias somos tentados a dizer “Não, Senhor. Muito obrigado, mas eu prefiro fazer as coisas do meu jeito. Não me importa sua opinião, eu prefiro assim e vai ser assim. Eu sei como fazer as coisas”. A partir daí a inocência da criança pequena se transforma na prepotência de um adulto que se acha mais crescido, mais independente, mais sabido, mais experiente, mais auto-suficiente.

Como se não bastasse, morre a simplicidade. Antes, com um vocabulário simples, porém sincero, era possível expressar a Deus nossos maiores anseios e sentimentos. Não havia máscaras, rótulos e nem cerimônias. Quando gostávamos de algo, sorríamos. Quando estava doendo, chorávamos. Sem a honestidade de uma criança, nos tornamos atores diante de Deus e dos homens. Legalistas, complexos e religiosos. Nosso vocabulário se torna rebuscado, carregado de manias e conceitos. Deus, que antes acreditávamos estar presente a todo o momento, se torna distante, rigoroso, complexo, difícil demais de se lidar, ocupado demais para se importar conosco. Nos obrigamos a parecer o que não somos. É aí que surgimos como “super-heróis gospel”, vivendo por trás de uma capa que esconde nossa fragilidade e limitação. E a vida se torna pesada, pesada demais.

Se voltarmos ao Éden, vamos ver que o senso de independência levou o homem ao fruto proibido que, conseqüentemente, deu-lhe o conhecimento do bem e do mal. O que isso significa? Eu diria que significa a morte da ingenuidade diante dos fatos. O homem, finalmente, experimenta o mal e o conhece de perto. Quando a ingenuidade morre entra em cena a malícia, a tendência para o mal. Você já reparou como, em muitas situações, a maldade passa despercebida diante dos olhos da criança? Uma piada de duplo sentido, um discurso mentiroso, etc. É claro que não estamos falando de alienação. A própria Palavra nos orienta: “(…) quero que sejam sábios em relação ao que é bom, e sem malícia em relação ao que é mau” (Romanos 16.19b), “(…) sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas” (Mateus 10.16b). Deus não nos condena por adquirimos sabedoria e entendimento das coisas, muito pelo contrário. Entretanto, há uma sabedoria que é livre das malícias e espertezas naturais deste mundo. Quando perdemos a ingenuidade, porém, nos tornamos maldosos e passamos a enxergar o mundo dessa maneira. Tornamo-nos invejosos, gananciosos, exploradores, abusivos, orgulhosos, interesseiros. Não oferecemos nada de bom, porque não esperamos nada de bom de ninguém. Perdemos o amor, pois o amor não suspeita mal (I Coríntios 13.4-7). Quantos cristãos “crescidos” perderam a essência e a ingenuidade do primeiro amor e se enveredaram pelo caminho da malícia? Quantos estão vivendo como escravos do pecado, buscando tirar algum proveito daquilo que fazem? Quem sabe você mesmo seja alguém que sempre age com segundas intenções, inclusive na obra de Deus, buscando seus próprios interesses em tudo o que faz. Sua mente, que um dia foi limpa, agora tem dado lugar para pensamentos que te aprisionam, memórias que te remetem à impureza da maldade.

A inocência morre, a simplicidade morre, a ingenuidade morre.

Não sei como terminar esse texto. Talvez você esteja refletindo sobre sua vida e concorde que muitas coisas ficaram lá atrás. Quem sabe esteja batendo certa saudade de momentos que você viveu e que, por alguma razão, se perderam no tempo como quando a gente olha algumas fotografias antigas. Porém, queria que esse possível saudosismo te impulsionasse a uma atitude concreta! Sim! Deus não nos mostra uma situação ruim sem que nos dê uma oportunidade de reescrevê-la junto com Ele. E se Ele permitiu que você lesse esse texto até aqui, é porque Ele quer que você compreenda o mais importante: Ele não desistiu de você!

É tempo de voltarmos ao lugar onde nos achamos auto-suficiente demais para dependermos de Deus. É tempo de abandonarmos o controle de certas situações em nossas vidas para deixarmos que Ele nos guie segundo a sua vontade. É tempo de confiar. Sim, CONFIAR! A inocência se perde quando deixamos de confiar em Deus, nas suas promessas, na sua provisão, no seu cuidado, e passamos a confiar em nós mesmos. Lembro-me de uma vez observar com cuidado o comportamento de um bebê de meses e sua dificuldade para se levantar do chão e se apoiar em uma cadeira. Era tanto esforço para uma coisa tão simples! Depois de algum tempo de esforço, quando ela estava quase lá, o pai estendeu as mãos, deu uma forcinha e o bebê conseguiu. Quanta dependência!

Que o Pai de amor te conduza a esse lugar onde Ele é tudo pra você. Que você não dê um passo sequer sem a ajuda do Paizão que você tem. Dependência é questão de sobrevivência. Se essa inocência morrer, você morre.

Thiago Pires (twitter.com/bolotapires)

Anúncios

~ por ministerioentrejovens em abril 25, 2010.

2 Respostas to “A inocência morreu?”

  1. Aki,
    estas ultimas messagens mexeram muito comigo.
    to gostando de ver, estou levando varias “facadas” através deste site.rs
    Deus continue abençoando este projeto.

  2. Glória a Deus! Que Deus abençoe a todos com essas palavras, pois sempre me abençoam muito.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: